21/05/2013

o quarto escuro não tem mapa, muito menos sinalizador que deixe qualquer solidão com uma esperança de resgate. as pessoas vagam como se tudo fosse automático, não se pensa mais, não se lê, muito menos enxergam da maneira como deve ser, tudo é metrópolis. dentro do quarto de tempo que escorre entre as paredes geladas, não dá para ter uma estratégia, vai pelos sentidos, como aquela brincadeira de gato mia que muito se brincava na época dourada de criança, mas aqui não estamos falando de malícia e sim da sobrevivência, do tato que ao pressentir ou sentir algo, seja agarrado com força. não se enxergam os gritos, muito menos a bela sinfonia do desespero, sufocado em andrajos e desfigurando a palidez, tudo é escuro. o fundo é abissal, chega ser escandalosamente desesperador, os olhos ardem e a respiração vai cessando, cessando e cessando. o coração bate como susto após um terrível pesadelo com monstros e pessoas, na quais se misturam numa orgia que pasollini teria inveja, ou quem sabe, calígula. escuro, tão escuro que os medos se estendem, os calafrios ficam mortais e as lágrimas sangram de dor. os cortes pelo corpo já são inevitáveis. e por coisas da vida, esbarrões nas ruas ou palavras pontuadas, surge uma luz que cega os olhos propositalmente, uma porta secreta se abre, uma outra região é descoberta, um sentimento confortável de sofá. é paz sem dor, sem tubos, sem flores mortas pelo tempo cansado de tentar o vão. enquanto muitos ficam nesse quarto apagado que sempre foi escuro, outros encontram limbos que cegam os olhos, dentro de uma fragilidade bonita. e ao surgir essa luz, tudo fica bem e também tudo vira clichê, daqueles de novela das 6 até espíritas, de vidas passadas.

mas tudo fica bem.

para ana c.


seu véu, como a sua pele cor de pérola, ainda desfila pelos oito andares que nos deixou.

27/08/2012

VII

 luz laranja
 entra na janela
 sábado de tarde cai.

19/07/2012

dois

e vamos passar uma sexta com tragos, navalhas, risadas da desgraça e algum sentido para essa vida.

18/07/2012

um

 no deserto das flores mortas, caio no abismo gelado de suas mãos.

02/06/2012

canto

hoje eu aceitaria seu cigarro
e ficaria vendo a vista
a vista
vista
e sentir sua respiração ao meu lado.